Thursday, March 16, 2006

Seu Preço

(Por: Richard Diegues)
Bianca nunca andara de limusine antes. Seus clientes invariavelmente não eram ricos. O melhor carro em que havia andado, foi em um enorme Honda, obviamentede um japonês que tentava compensar suas partes minúsculas.
Não que não fosse bonita. Era um belo tipo, com um belo corpo, principalmente quando usava um bom vestido e complementava com uma boa maquilagem. Seu problema era o local de trabalho. A boate tinha uma freqüência ruim, mas era difícil entrar nas casas mais bem freqüentadas. As outras prostitutas temiam perder seus clientes e eram ariscas.
Aquela noite começara despretensiosa. Bianca nem mesmo estava trabalhando.
Havia ido à boate apenas para receber pela semana e tomar um drinque.
Conversava com Sheila, uma das meninas mais antigas da casa. Viram quando ohomem entrou e comentaram entre si, que era muito mais elegante do que os “habitues” da casa. As outras meninas também repararam, caindo em cima dele como moscas no mel. Uma a uma foram sendo recusadas e Bianca sorria junto com Sheila das tentativas patéticas de investida que as outras usavam. Mas apesar disso, ficou espantada, quando ele se aproximou e puxou uma cadeira em sua mesa, sentando-se entre as duas, sem dizer uma palavra sequer.
Os olhares das garotas acompanharam encantados os gestos dele, ao chamar o garçom e depois o cuidado com que apanhou as taças de champanhe, deslizando uma para cada uma delas, por sobre a mesa e entornou a sua própria. A inveja das demais era como uma massa pegajosa no ar. E foi o que ele disse a elas antes deconvidá-las para saírem dali.
– Quanto você cobraria para ser minha essa noite? – perguntou, enquanto abria aporta da imensa limusine e auxiliava Bianca a entrar.
– Não sei – Bianca respondeu, atônita enquanto admirava o veículo. Pensara em não cobrar por aquela noite, para criar fidelidade ao cliente. Achava, no entanto que Sheila não concordaria com isso. Olhou para ele, tentando lembrar se era bonito, a ponto da noite valer a pena. Por mais estranho que parecesse, estivera sentada na mesa, ao lado dele, durante quase uma hora e não lembravade seu rosto. Na verdade, não conseguiria dizer se era baixo ou alto, branco ou negro, e muito menos a cor de seus cabelos e olhos
Aproveitou, quando ele se curvou para o bar da limusine, para apanhar um champanhe, e o analisou. Depois de alguns instantes, decidiu que era realmentemuito bonito. Mas, mal desviou os olhos dele, para a taça de champanhe e percebeu que já não se lembrava novamente de nenhum de seus traços. Estava ainda mais confusa.
– Eu cobro quinhentos – disse Sheila e rapidamente completou a frase, ao ver que o homem não esboçou reação alguma – em dólar. Quinhentos dólares.
Ele meneou a cabeça em um gesto afirmativo e tornou a encher as taças, com um leve sorriso. Depois encarou Bianca.
– Sua amiga será minha por quinhentos dólares. Você obviamente é mais cara, não é?
Sheila olhou para Bianca, pensando em protestar, mas desistiu, pois tanto poderiam entrar em um acordo e dividir os lucros, como já iria ganhar mais do que em duas semanas de trabalho por aquela noite. Fez uma careta para a amiga e um gesto com a mão para cima, incitando-a a cobrar um valor exorbitante.
– Eu não vou cobrar nada por esta noite – disse, observando que os olhos do homem eram castanhos. Na verdade, pareciam cor-de-mel ou esverdeados. Era difícil dizer com certeza, possivelmente por causa dos vidros escurecidos. –Fica para nos conhecermos. Em uma outra ocasião acertamos valores.
Cerca de dez minutos se passaram em um jogo onde o homem insistia para que Bianca cobrasse dele, cada vez sugerindo valores mais altos e Sheila chutandoas canelas dela, entre caretas e gemidos. Bianca ficou realmente tentada com umvalor absurdo que o homem sugeriu ser sua última oferta, daria para passar mais de dez dias em frente ao mar, descansando, no entanto, deste ponto em diante, seus instintos diziam que algo não estava certo e recusou veementemente.
Começava a ficar com medo daquilo tudo e pediu para descer do carro.
Dois dias depois, procurou por Sheila na boate, mas não a encontrou. As meninas disseram que não havia retornado, mas que deveria estar tudo bem, pois não havia sinal de polícia, completaram já acostumadas a relacionar sumiços e interrogatórios. Seus pés ainda tinham bolhas, pois tivera que caminhar bastante, depois que desceu da limusine na beira da rodovia. Nem lembrava mais o motivo de ter descido. Lembrava pouca coisa daquela noite, possivelmente por efeito da bebida. Se bem que não bebera muito, ao menos, era o que achava.
Sheila não havia retornado até o momento, podia estar morta, mas era mais provável que estivesse em alguma praia chique, gastando o dinheiro que ganharacom o programa. Sentia uma pontada de arrependimento por não ter ido com ela.
Bianca olhava para o copo de vermute a sua frente, remexendo em círculos, uma azeitona espetada em um palito, pensando que Sheila retornaria quando a grana acabasse. Não acreditava que algo de errado houvesse ocorrido. Foi então que viu um homem entrar na boate. Era mais elegante que a clientela habitual.
Achava que já o havia visto em algum lugar, mas não lembrava onde. Sorriu,quando ele evitou as demais garotas e se aproximou, sentando-se em sua mesa.
Encarou seus olhos castanhos, um tanto esverdeados, pensando no quanto poderia arrancar dele. Não seria tola dessa vez, precisava descansar um pouco. Ganharia o suficiente para ir para uma boa praia. E da forma que o homem a olhava, como se a conhecesse, parecia que pagaria o que ela lhe pedisse. Sim, pagaria o preço que fosse para tê-la.
Fim

Tuesday, March 07, 2006

Cristal Bolorento

Autor: Richard Diegues
Acordei mal, mas isso passa. É ressaca. Olhando lá pra baixo e vendo os “giroflex”, gargalho e lamento não ter bastante saliva pra cuspir.
Culpa da vadia que nem sei o nome. Só lembro das curvas. Que curvas! O azar foi ter bebido tanto. Coquetel na faixa, vinho rameiro. Não fosse o porre, não tinha tombado e apagado depois de gozar. Só se desmaia depois de mandar as pivetes embora.
“Só tem terror? Esse nas capas é você?”
Que papo é esse de “é você”? Só me deu porque eu era escritor. Pensa que não vi o papinho? “Disfarça que o escritor tá olhando”. Ordinária.
"Tenho outros. Não estão aí. Não mexe."
Fui pra cozinha pelado. Ela tinha se vestido. Quase.
“Quantos livros você escreveu?”
Entre o abrir do armário e o chiar do comprimido, respondi.
“Trinta. Nem sei mais. Não vai embora?”
Ela chega na cozinha. Piso frio. Descalça. Os mamilos apontam na hora. Olho pra baixo. Também aponto. Abre a geladeira e pega uma jarra. Parece suco de manga. Vê que levantei meia-bomba e ajoelha. O quente com o gelado do suco me desarma.
“Hum”. Toma outro gole. “Escreve um livro pra mim”. Enterro. Engasga. “Só que não quero terror. Escreve romance”. Enterro. Engasga. Engasga. Engasga. Empurra e cai de bunda no piso. A jarra cai, mas não quebra. É grossa. Cristal-não-sei-de-onde. Forte pra caralho.
“Some daqui”. Aponto pra sair e com a mão termino o serviço.
“Você pode escrever outras coisas. Vi sua gaveta. Tem poesia. Crônica esportiva. Resumo de romance com outro nome. Pseudônimo, né?”
Meu pau amoleceu. Viu minha gaveta? Foi fuçar minha gaveta? Piranha.
Chapei a mão na orelha. Caiu na sala. Xingou. Babou sangue no carpete. Bati novamente. Abri a porta. Gritei pra sair. Xingou minha mãe, meu pai e até a porra-do-espírito-santo. Dei amém e um pé na bunda. Literal. Fechei a porta. Não fosse a ressaca, dava pontapé até chegar ao elevador.
A vaca não sabia que tinha dado sorte.
Pode se meter na minha cama, na minha geladeira, no caralho que o for. Mas o que escrevo é problema meu. Escrevo o que quero. Se um dia resolver escrever crônicas sobre as hemorróidas da tia, escrevo. Mas não é uma chupa-cú que vai me dizer. Mas a sorte acabou.
Peguei a jarra do chão. Ignorava os gritos no corredor. Tentava achar um pano. Já ia usar a toalha pra limpar a molhadeira. Então ouvi.
“Essa merda não tem mercado. Escreve pra mim. Tenho uma idéia maravilhosa. Um romance”.
Quando abri a porta, ela não entendeu. Só deve ter entendido quando chapei a jarra na testa dela. O cristal-não-sei-de-onde é bom. O crânio foi. O cristal nem arranhou. Enquanto olhava pro lindo corpo e pro cérebro espalhado, lembrei do “por fora bela viola, por dentro, pão bolorento”.
Olhei pra baixo. Vinte andares. Juntei o que restava de saliva. Uma última cusparada. Primeiro o cuspe caiu na viatura. Depois a jarra. Por último eu.
E acho que a jarra não quebrou!
Fim.
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Século XXI

Autor: Richard Diegues

“Há muito tempo você anda em círculos, já não sabe de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira. Se você correu, correu tanto, e não chegou a lugar nenhum. Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI”.¹

Eu ouço a música e entendo porque deixei aquele humano partir. Era uma alma vampírica presa em um corpo humano. Um corpo debilitado que guardava uma alma esplendida e uma mente incomparável. Olho minhas unhas sujas de sangue e terra e penso no motivo que me levou a cavar meu próprio túmulo. Uma melodia infernal que ainda hoje inunda meus ouvidos, mesmo no completo silêncio desta noite.
“Eleonora, eu não tenho medo de morrer. Já morri e ressuscitei por duas vezes. Não quero viver para sempre, seja lá o quanto dure esse para sempre. Serei imortal pela minha obra em vida, não na carne. Você diz que me ama pela minha arte? Eu digo que você ama minha arte e não a mim. Minha arte vai ficar para você. Os homens passam, as músicas ficam.”
Praticamente posso ver os seus olhos embaçados pelo ácido e pelas brumas do álcool me fitando e rindo de minha proposta. Vivi quase vinte séculos e dei o dom da vida eterna para sete pessoas que escolhi por diversas razões, mas sempre com um único objetivo: não perdê-las jamais. Nunca antes uma havia rejeitado conscientemente minha oferta. Centenas que matei me imploraram pelo dom negro e milhares viriam a mim se eu me dispusesse a cedê-lo. Mas não aquele drogado arrogante. Ele tinha que recusar minha oferta. Ele tinha que me ferir. Precisava ser tão profundamente?
Quantos anos se passaram enquanto eu permaneci deitada em meio aos vermes? Meu corpo enterrado tão fundo que minha mente deixou a civilização me envolver sem que eu sentisse? Vasculho o ar com minha audição e depois de alguns minutos ouço a resposta. Cálculos mentais me confirmam que fiquei estagnada durante quinze anos. Foram quinze anos remoendo sua rejeição e sua morte. Lembrando de sua recusa e sabendo que ele tinha a razão e que a razão era tudo o que tinha.
“Se eu não tenho fascínio por você? É claro baby, e isto é o que nos afasta. Me fascina a tua morte mal morrida e a tua luta para ficar em tal estado. Tua luta diária pelo sangue que lhe mantém jovem e viva. O teu beijo tão fatal, nunca me assusta, pois eu sei existe um fim para o sangue derramado. Me fascinam os teus olhos quando brilham, pouco antes de escolher quem te seduz. E me fascinam, os teus medos absurdos: a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz. Me fascina a tua força, muito embora, não consiga resistir a frágil aurora. E tua capa de uma escuridão sem mácula. Me fascinam os teus dentes assustadores e os teus séculos de lendas e de horrores. Tudo em você é fascinante e por esse mesmo motivo um tanto repulsivo. O que um homem faz quando sabe que não vai morrer? O que o faz se apegar à vida se ela lhe é dada para sempre? Como um compositor pode escrever uma melodia se não tem a inspiração de deixar o melhor de si depois de sua partida? Não baby, não é isto que eu quero. Quero morrer um dia como todos e descobrir o que vem depois. Quero as respostas para tudo e elas não estão aqui na terra. A vida eterna não é um dom como você diz, mas sim uma maldição. O que você me oferece eu não posso aceitar. Vivendo para sempre eu morreria para mim mesmo. Veja quantos séculos você viveu e ainda assim não tem as respostas, apenas as mesmas perguntas que eu. Há muito tempo você anda em círculos, já não lembra de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira.” ²
Suas palavras me feriram profundamente. Ele estava ali na minha frente, sentado no chão de minha casa, pernas cruzadas, óculos de lentes escuras emaranhados ao cabelo comprido. O sorriso semi-oculto pela barba desfazendo de mim e o olhar irônico zombando de meus dentes que eu fazia questão de deixar aparentes. Ele dizia querer as respostas e o que mais me doía era que eu também as queria. Mas elas existiriam? Eu fiquei várias gerações acompanhando o desenvolvimento humano e a cada uma delas eu via o homem coletivamente caminhando em direção a elas, mas não conseguia enxergar uma previsão de alcance. Deus continuava zombando e a cada pergunta que eu descobria as respostas, uma outra surgia, depois outra, outra e outra, até que eu acabava retomando a pergunta inicial. Ele sabia disto, tinha razão. Eu andava em círculos. Tornei-me uma vampira por opção, pois esperava que com os anos tivesse todas as respostas. O demônio me enganou e ele sabia disso. Era irritante que estivesse sempre certo e eu errada. Um humano que me humilhava em minha própria casa. Um humano que se recusava a viver eternamente. Um humano que tinha mais respostas em seus poucos anos de vida do que eu em toda minha longa existência. Minha gana era de estraçalhar seu pescoço, sugar todo o seu sangue e queimar seus restos até que nada restasse além do pó que eu espalharia aos quatro ventos. Mas eu o deixei partir. Recebi até mesmo um terno beijo em meu rosto e um abraço emotivo à porta. Eu o deixei partir.
Algum tempo depois ele partiu definitivamente e eu não sei se encontrou as respostas que tanto almejava. Eu permaneci durante noites e noites em minha casa. Magoada e com o consolo de suas músicas. Muitas feitas especialmente para mim, falando de minha vida, de nossos encontros, de sua recusa. Eu ouvi incessantemente suas canções até que me deparei com uma em especial que me trouxe todo o terror da noite em que o deixei partir. Sem suportar a dor, enterrei-me o mais fundo que pude, decidida a nunca mais sair do fundo da terra e lá permaneci até hoje.
A mesma música que me fez ir para o sono eterno, me fez sair dele. Era exatamente a mesma música, as mesmas palavras, mas em outra voz. O som mais denso, mais agressivo, mas com a mesma compreensão das palavras. Teria eu uma nova chance? Poderia eu me redimir de meu erro em tê-lo deixado partir? Prestei atenção e captei a imagem da mente de um humano. Marcelo era o nome de meu novo amor. Teria ele a mesma alma que meu amado Raul? Recusaria ele o dom da eternidade? Para isto me levantei. Oh, baby, bem vinda ao século XXI.

Fim.

Notas:

Este texto foi escrito em homenagem a três dos maiores compositores brasileiros que possuem músicas que aludem aos vampiros: Raul Seixas, Marcelo Nova e Paulo Coelho. Juntos, eles possuem mais de cem músicas compostas que aludem ao vampirismo.

¹ Trecho da música “Século XXI” de Raul Seixas e Marcelo Nova.
² Contém trechos da música “Magia de Amor” de Raul Seixas e Paulo Coelho


Século XXI
Há muito tempo você anda em círculos, já não sabe de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira. Se você correu, correu tanto, e não chegou a lugar nenhum. Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI. Você cruzou todas as fronteiras, não sabe mais de que lado ficou. Ainda tenta, ainda procura, por um tempo que faz tempo passou. Agora é noite na tua existência, cuja essência perdeu o lugar. Talvez esteja aí pelos cantos, mas está escuro pra poder encontrar.

Magia de Amor
Me fascina a tua morte mal morrida e a tua luta para ficar em tal estado. O teu beijo, tão fatal, nunca me assusta, pois existe um fim para o sangue derramado. Me fascinam os teus olhos quando brilham, pouco antes de escolher quem te seduz. E me fascinam, os teus medos absurdos: a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz. Me fascina a tua força, muito embora, não consiga resistir a frágil aurora. E tua capa de uma escuridão sem mácula. Me fascinam os teus dentes assustadores e os teus séculos de lendas e de horrores. E a nobreza, a nobreza do teu nome: Conde Drácula