Tuesday, March 07, 2006

Cristal Bolorento

Autor: Richard Diegues
Acordei mal, mas isso passa. É ressaca. Olhando lá pra baixo e vendo os “giroflex”, gargalho e lamento não ter bastante saliva pra cuspir.
Culpa da vadia que nem sei o nome. Só lembro das curvas. Que curvas! O azar foi ter bebido tanto. Coquetel na faixa, vinho rameiro. Não fosse o porre, não tinha tombado e apagado depois de gozar. Só se desmaia depois de mandar as pivetes embora.
“Só tem terror? Esse nas capas é você?”
Que papo é esse de “é você”? Só me deu porque eu era escritor. Pensa que não vi o papinho? “Disfarça que o escritor tá olhando”. Ordinária.
"Tenho outros. Não estão aí. Não mexe."
Fui pra cozinha pelado. Ela tinha se vestido. Quase.
“Quantos livros você escreveu?”
Entre o abrir do armário e o chiar do comprimido, respondi.
“Trinta. Nem sei mais. Não vai embora?”
Ela chega na cozinha. Piso frio. Descalça. Os mamilos apontam na hora. Olho pra baixo. Também aponto. Abre a geladeira e pega uma jarra. Parece suco de manga. Vê que levantei meia-bomba e ajoelha. O quente com o gelado do suco me desarma.
“Hum”. Toma outro gole. “Escreve um livro pra mim”. Enterro. Engasga. “Só que não quero terror. Escreve romance”. Enterro. Engasga. Engasga. Engasga. Empurra e cai de bunda no piso. A jarra cai, mas não quebra. É grossa. Cristal-não-sei-de-onde. Forte pra caralho.
“Some daqui”. Aponto pra sair e com a mão termino o serviço.
“Você pode escrever outras coisas. Vi sua gaveta. Tem poesia. Crônica esportiva. Resumo de romance com outro nome. Pseudônimo, né?”
Meu pau amoleceu. Viu minha gaveta? Foi fuçar minha gaveta? Piranha.
Chapei a mão na orelha. Caiu na sala. Xingou. Babou sangue no carpete. Bati novamente. Abri a porta. Gritei pra sair. Xingou minha mãe, meu pai e até a porra-do-espírito-santo. Dei amém e um pé na bunda. Literal. Fechei a porta. Não fosse a ressaca, dava pontapé até chegar ao elevador.
A vaca não sabia que tinha dado sorte.
Pode se meter na minha cama, na minha geladeira, no caralho que o for. Mas o que escrevo é problema meu. Escrevo o que quero. Se um dia resolver escrever crônicas sobre as hemorróidas da tia, escrevo. Mas não é uma chupa-cú que vai me dizer. Mas a sorte acabou.
Peguei a jarra do chão. Ignorava os gritos no corredor. Tentava achar um pano. Já ia usar a toalha pra limpar a molhadeira. Então ouvi.
“Essa merda não tem mercado. Escreve pra mim. Tenho uma idéia maravilhosa. Um romance”.
Quando abri a porta, ela não entendeu. Só deve ter entendido quando chapei a jarra na testa dela. O cristal-não-sei-de-onde é bom. O crânio foi. O cristal nem arranhou. Enquanto olhava pro lindo corpo e pro cérebro espalhado, lembrei do “por fora bela viola, por dentro, pão bolorento”.
Olhei pra baixo. Vinte andares. Juntei o que restava de saliva. Uma última cusparada. Primeiro o cuspe caiu na viatura. Depois a jarra. Por último eu.
E acho que a jarra não quebrou!
Fim.
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