Século XXI
Autor: Richard Diegues
“Há muito tempo você anda em círculos, já não sabe de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira. Se você correu, correu tanto, e não chegou a lugar nenhum. Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI”.¹
Eu ouço a música e entendo porque deixei aquele humano partir. Era uma alma vampírica presa em um corpo humano. Um corpo debilitado que guardava uma alma esplendida e uma mente incomparável. Olho minhas unhas sujas de sangue e terra e penso no motivo que me levou a cavar meu próprio túmulo. Uma melodia infernal que ainda hoje inunda meus ouvidos, mesmo no completo silêncio desta noite.
“Eleonora, eu não tenho medo de morrer. Já morri e ressuscitei por duas vezes. Não quero viver para sempre, seja lá o quanto dure esse para sempre. Serei imortal pela minha obra em vida, não na carne. Você diz que me ama pela minha arte? Eu digo que você ama minha arte e não a mim. Minha arte vai ficar para você. Os homens passam, as músicas ficam.”
Praticamente posso ver os seus olhos embaçados pelo ácido e pelas brumas do álcool me fitando e rindo de minha proposta. Vivi quase vinte séculos e dei o dom da vida eterna para sete pessoas que escolhi por diversas razões, mas sempre com um único objetivo: não perdê-las jamais. Nunca antes uma havia rejeitado conscientemente minha oferta. Centenas que matei me imploraram pelo dom negro e milhares viriam a mim se eu me dispusesse a cedê-lo. Mas não aquele drogado arrogante. Ele tinha que recusar minha oferta. Ele tinha que me ferir. Precisava ser tão profundamente?
Quantos anos se passaram enquanto eu permaneci deitada em meio aos vermes? Meu corpo enterrado tão fundo que minha mente deixou a civilização me envolver sem que eu sentisse? Vasculho o ar com minha audição e depois de alguns minutos ouço a resposta. Cálculos mentais me confirmam que fiquei estagnada durante quinze anos. Foram quinze anos remoendo sua rejeição e sua morte. Lembrando de sua recusa e sabendo que ele tinha a razão e que a razão era tudo o que tinha.
“Se eu não tenho fascínio por você? É claro baby, e isto é o que nos afasta. Me fascina a tua morte mal morrida e a tua luta para ficar em tal estado. Tua luta diária pelo sangue que lhe mantém jovem e viva. O teu beijo tão fatal, nunca me assusta, pois eu sei existe um fim para o sangue derramado. Me fascinam os teus olhos quando brilham, pouco antes de escolher quem te seduz. E me fascinam, os teus medos absurdos: a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz. Me fascina a tua força, muito embora, não consiga resistir a frágil aurora. E tua capa de uma escuridão sem mácula. Me fascinam os teus dentes assustadores e os teus séculos de lendas e de horrores. Tudo em você é fascinante e por esse mesmo motivo um tanto repulsivo. O que um homem faz quando sabe que não vai morrer? O que o faz se apegar à vida se ela lhe é dada para sempre? Como um compositor pode escrever uma melodia se não tem a inspiração de deixar o melhor de si depois de sua partida? Não baby, não é isto que eu quero. Quero morrer um dia como todos e descobrir o que vem depois. Quero as respostas para tudo e elas não estão aqui na terra. A vida eterna não é um dom como você diz, mas sim uma maldição. O que você me oferece eu não posso aceitar. Vivendo para sempre eu morreria para mim mesmo. Veja quantos séculos você viveu e ainda assim não tem as respostas, apenas as mesmas perguntas que eu. Há muito tempo você anda em círculos, já não lembra de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira.” ²
Suas palavras me feriram profundamente. Ele estava ali na minha frente, sentado no chão de minha casa, pernas cruzadas, óculos de lentes escuras emaranhados ao cabelo comprido. O sorriso semi-oculto pela barba desfazendo de mim e o olhar irônico zombando de meus dentes que eu fazia questão de deixar aparentes. Ele dizia querer as respostas e o que mais me doía era que eu também as queria. Mas elas existiriam? Eu fiquei várias gerações acompanhando o desenvolvimento humano e a cada uma delas eu via o homem coletivamente caminhando em direção a elas, mas não conseguia enxergar uma previsão de alcance. Deus continuava zombando e a cada pergunta que eu descobria as respostas, uma outra surgia, depois outra, outra e outra, até que eu acabava retomando a pergunta inicial. Ele sabia disto, tinha razão. Eu andava em círculos. Tornei-me uma vampira por opção, pois esperava que com os anos tivesse todas as respostas. O demônio me enganou e ele sabia disso. Era irritante que estivesse sempre certo e eu errada. Um humano que me humilhava em minha própria casa. Um humano que se recusava a viver eternamente. Um humano que tinha mais respostas em seus poucos anos de vida do que eu em toda minha longa existência. Minha gana era de estraçalhar seu pescoço, sugar todo o seu sangue e queimar seus restos até que nada restasse além do pó que eu espalharia aos quatro ventos. Mas eu o deixei partir. Recebi até mesmo um terno beijo em meu rosto e um abraço emotivo à porta. Eu o deixei partir.
Algum tempo depois ele partiu definitivamente e eu não sei se encontrou as respostas que tanto almejava. Eu permaneci durante noites e noites em minha casa. Magoada e com o consolo de suas músicas. Muitas feitas especialmente para mim, falando de minha vida, de nossos encontros, de sua recusa. Eu ouvi incessantemente suas canções até que me deparei com uma em especial que me trouxe todo o terror da noite em que o deixei partir. Sem suportar a dor, enterrei-me o mais fundo que pude, decidida a nunca mais sair do fundo da terra e lá permaneci até hoje.
A mesma música que me fez ir para o sono eterno, me fez sair dele. Era exatamente a mesma música, as mesmas palavras, mas em outra voz. O som mais denso, mais agressivo, mas com a mesma compreensão das palavras. Teria eu uma nova chance? Poderia eu me redimir de meu erro em tê-lo deixado partir? Prestei atenção e captei a imagem da mente de um humano. Marcelo era o nome de meu novo amor. Teria ele a mesma alma que meu amado Raul? Recusaria ele o dom da eternidade? Para isto me levantei. Oh, baby, bem vinda ao século XXI.
Fim.
Notas:
Este texto foi escrito em homenagem a três dos maiores compositores brasileiros que possuem músicas que aludem aos vampiros: Raul Seixas, Marcelo Nova e Paulo Coelho. Juntos, eles possuem mais de cem músicas compostas que aludem ao vampirismo.
¹ Trecho da música “Século XXI” de Raul Seixas e Marcelo Nova.
² Contém trechos da música “Magia de Amor” de Raul Seixas e Paulo Coelho
Século XXI
Há muito tempo você anda em círculos, já não sabe de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira. Se você correu, correu tanto, e não chegou a lugar nenhum. Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI. Você cruzou todas as fronteiras, não sabe mais de que lado ficou. Ainda tenta, ainda procura, por um tempo que faz tempo passou. Agora é noite na tua existência, cuja essência perdeu o lugar. Talvez esteja aí pelos cantos, mas está escuro pra poder encontrar.
Magia de Amor
Me fascina a tua morte mal morrida e a tua luta para ficar em tal estado. O teu beijo, tão fatal, nunca me assusta, pois existe um fim para o sangue derramado. Me fascinam os teus olhos quando brilham, pouco antes de escolher quem te seduz. E me fascinam, os teus medos absurdos: a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz. Me fascina a tua força, muito embora, não consiga resistir a frágil aurora. E tua capa de uma escuridão sem mácula. Me fascinam os teus dentes assustadores e os teus séculos de lendas e de horrores. E a nobreza, a nobreza do teu nome: Conde Drácula
“Há muito tempo você anda em círculos, já não sabe de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira. Se você correu, correu tanto, e não chegou a lugar nenhum. Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI”.¹
Eu ouço a música e entendo porque deixei aquele humano partir. Era uma alma vampírica presa em um corpo humano. Um corpo debilitado que guardava uma alma esplendida e uma mente incomparável. Olho minhas unhas sujas de sangue e terra e penso no motivo que me levou a cavar meu próprio túmulo. Uma melodia infernal que ainda hoje inunda meus ouvidos, mesmo no completo silêncio desta noite.
“Eleonora, eu não tenho medo de morrer. Já morri e ressuscitei por duas vezes. Não quero viver para sempre, seja lá o quanto dure esse para sempre. Serei imortal pela minha obra em vida, não na carne. Você diz que me ama pela minha arte? Eu digo que você ama minha arte e não a mim. Minha arte vai ficar para você. Os homens passam, as músicas ficam.”
Praticamente posso ver os seus olhos embaçados pelo ácido e pelas brumas do álcool me fitando e rindo de minha proposta. Vivi quase vinte séculos e dei o dom da vida eterna para sete pessoas que escolhi por diversas razões, mas sempre com um único objetivo: não perdê-las jamais. Nunca antes uma havia rejeitado conscientemente minha oferta. Centenas que matei me imploraram pelo dom negro e milhares viriam a mim se eu me dispusesse a cedê-lo. Mas não aquele drogado arrogante. Ele tinha que recusar minha oferta. Ele tinha que me ferir. Precisava ser tão profundamente?
Quantos anos se passaram enquanto eu permaneci deitada em meio aos vermes? Meu corpo enterrado tão fundo que minha mente deixou a civilização me envolver sem que eu sentisse? Vasculho o ar com minha audição e depois de alguns minutos ouço a resposta. Cálculos mentais me confirmam que fiquei estagnada durante quinze anos. Foram quinze anos remoendo sua rejeição e sua morte. Lembrando de sua recusa e sabendo que ele tinha a razão e que a razão era tudo o que tinha.
“Se eu não tenho fascínio por você? É claro baby, e isto é o que nos afasta. Me fascina a tua morte mal morrida e a tua luta para ficar em tal estado. Tua luta diária pelo sangue que lhe mantém jovem e viva. O teu beijo tão fatal, nunca me assusta, pois eu sei existe um fim para o sangue derramado. Me fascinam os teus olhos quando brilham, pouco antes de escolher quem te seduz. E me fascinam, os teus medos absurdos: a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz. Me fascina a tua força, muito embora, não consiga resistir a frágil aurora. E tua capa de uma escuridão sem mácula. Me fascinam os teus dentes assustadores e os teus séculos de lendas e de horrores. Tudo em você é fascinante e por esse mesmo motivo um tanto repulsivo. O que um homem faz quando sabe que não vai morrer? O que o faz se apegar à vida se ela lhe é dada para sempre? Como um compositor pode escrever uma melodia se não tem a inspiração de deixar o melhor de si depois de sua partida? Não baby, não é isto que eu quero. Quero morrer um dia como todos e descobrir o que vem depois. Quero as respostas para tudo e elas não estão aqui na terra. A vida eterna não é um dom como você diz, mas sim uma maldição. O que você me oferece eu não posso aceitar. Vivendo para sempre eu morreria para mim mesmo. Veja quantos séculos você viveu e ainda assim não tem as respostas, apenas as mesmas perguntas que eu. Há muito tempo você anda em círculos, já não lembra de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira.” ²
Suas palavras me feriram profundamente. Ele estava ali na minha frente, sentado no chão de minha casa, pernas cruzadas, óculos de lentes escuras emaranhados ao cabelo comprido. O sorriso semi-oculto pela barba desfazendo de mim e o olhar irônico zombando de meus dentes que eu fazia questão de deixar aparentes. Ele dizia querer as respostas e o que mais me doía era que eu também as queria. Mas elas existiriam? Eu fiquei várias gerações acompanhando o desenvolvimento humano e a cada uma delas eu via o homem coletivamente caminhando em direção a elas, mas não conseguia enxergar uma previsão de alcance. Deus continuava zombando e a cada pergunta que eu descobria as respostas, uma outra surgia, depois outra, outra e outra, até que eu acabava retomando a pergunta inicial. Ele sabia disto, tinha razão. Eu andava em círculos. Tornei-me uma vampira por opção, pois esperava que com os anos tivesse todas as respostas. O demônio me enganou e ele sabia disso. Era irritante que estivesse sempre certo e eu errada. Um humano que me humilhava em minha própria casa. Um humano que se recusava a viver eternamente. Um humano que tinha mais respostas em seus poucos anos de vida do que eu em toda minha longa existência. Minha gana era de estraçalhar seu pescoço, sugar todo o seu sangue e queimar seus restos até que nada restasse além do pó que eu espalharia aos quatro ventos. Mas eu o deixei partir. Recebi até mesmo um terno beijo em meu rosto e um abraço emotivo à porta. Eu o deixei partir.
Algum tempo depois ele partiu definitivamente e eu não sei se encontrou as respostas que tanto almejava. Eu permaneci durante noites e noites em minha casa. Magoada e com o consolo de suas músicas. Muitas feitas especialmente para mim, falando de minha vida, de nossos encontros, de sua recusa. Eu ouvi incessantemente suas canções até que me deparei com uma em especial que me trouxe todo o terror da noite em que o deixei partir. Sem suportar a dor, enterrei-me o mais fundo que pude, decidida a nunca mais sair do fundo da terra e lá permaneci até hoje.
A mesma música que me fez ir para o sono eterno, me fez sair dele. Era exatamente a mesma música, as mesmas palavras, mas em outra voz. O som mais denso, mais agressivo, mas com a mesma compreensão das palavras. Teria eu uma nova chance? Poderia eu me redimir de meu erro em tê-lo deixado partir? Prestei atenção e captei a imagem da mente de um humano. Marcelo era o nome de meu novo amor. Teria ele a mesma alma que meu amado Raul? Recusaria ele o dom da eternidade? Para isto me levantei. Oh, baby, bem vinda ao século XXI.
Fim.
Notas:
Este texto foi escrito em homenagem a três dos maiores compositores brasileiros que possuem músicas que aludem aos vampiros: Raul Seixas, Marcelo Nova e Paulo Coelho. Juntos, eles possuem mais de cem músicas compostas que aludem ao vampirismo.
¹ Trecho da música “Século XXI” de Raul Seixas e Marcelo Nova.
² Contém trechos da música “Magia de Amor” de Raul Seixas e Paulo Coelho
Século XXI
Há muito tempo você anda em círculos, já não sabe de onde foi que partiu. Tantos desejos soprados pelo vento se espatifaram quando o vento sumiu. Você vendeu sua alma ao acaso, que por descaso, estava ali de bobeira. E em troca recebeu os pedaços: cacos de vida de uma vida inteira. Se você correu, correu tanto, e não chegou a lugar nenhum. Baby, oh baby, bem vinda ao século XXI. Você cruzou todas as fronteiras, não sabe mais de que lado ficou. Ainda tenta, ainda procura, por um tempo que faz tempo passou. Agora é noite na tua existência, cuja essência perdeu o lugar. Talvez esteja aí pelos cantos, mas está escuro pra poder encontrar.
Magia de Amor
Me fascina a tua morte mal morrida e a tua luta para ficar em tal estado. O teu beijo, tão fatal, nunca me assusta, pois existe um fim para o sangue derramado. Me fascinam os teus olhos quando brilham, pouco antes de escolher quem te seduz. E me fascinam, os teus medos absurdos: a estaca, o alho, o fogo, o sol, a cruz. Me fascina a tua força, muito embora, não consiga resistir a frágil aurora. E tua capa de uma escuridão sem mácula. Me fascinam os teus dentes assustadores e os teus séculos de lendas e de horrores. E a nobreza, a nobreza do teu nome: Conde Drácula

0 Comments:
Post a Comment
<< Home