Seu Preço
(Por: Richard Diegues)
Bianca nunca andara de limusine antes. Seus clientes invariavelmente não eram ricos. O melhor carro em que havia andado, foi em um enorme Honda, obviamentede um japonês que tentava compensar suas partes minúsculas.
Não que não fosse bonita. Era um belo tipo, com um belo corpo, principalmente quando usava um bom vestido e complementava com uma boa maquilagem. Seu problema era o local de trabalho. A boate tinha uma freqüência ruim, mas era difícil entrar nas casas mais bem freqüentadas. As outras prostitutas temiam perder seus clientes e eram ariscas.
Aquela noite começara despretensiosa. Bianca nem mesmo estava trabalhando.
Havia ido à boate apenas para receber pela semana e tomar um drinque.
Conversava com Sheila, uma das meninas mais antigas da casa. Viram quando ohomem entrou e comentaram entre si, que era muito mais elegante do que os “habitues” da casa. As outras meninas também repararam, caindo em cima dele como moscas no mel. Uma a uma foram sendo recusadas e Bianca sorria junto com Sheila das tentativas patéticas de investida que as outras usavam. Mas apesar disso, ficou espantada, quando ele se aproximou e puxou uma cadeira em sua mesa, sentando-se entre as duas, sem dizer uma palavra sequer.
Os olhares das garotas acompanharam encantados os gestos dele, ao chamar o garçom e depois o cuidado com que apanhou as taças de champanhe, deslizando uma para cada uma delas, por sobre a mesa e entornou a sua própria. A inveja das demais era como uma massa pegajosa no ar. E foi o que ele disse a elas antes deconvidá-las para saírem dali.
– Quanto você cobraria para ser minha essa noite? – perguntou, enquanto abria aporta da imensa limusine e auxiliava Bianca a entrar.
– Não sei – Bianca respondeu, atônita enquanto admirava o veículo. Pensara em não cobrar por aquela noite, para criar fidelidade ao cliente. Achava, no entanto que Sheila não concordaria com isso. Olhou para ele, tentando lembrar se era bonito, a ponto da noite valer a pena. Por mais estranho que parecesse, estivera sentada na mesa, ao lado dele, durante quase uma hora e não lembravade seu rosto. Na verdade, não conseguiria dizer se era baixo ou alto, branco ou negro, e muito menos a cor de seus cabelos e olhos
Aproveitou, quando ele se curvou para o bar da limusine, para apanhar um champanhe, e o analisou. Depois de alguns instantes, decidiu que era realmentemuito bonito. Mas, mal desviou os olhos dele, para a taça de champanhe e percebeu que já não se lembrava novamente de nenhum de seus traços. Estava ainda mais confusa.
– Eu cobro quinhentos – disse Sheila e rapidamente completou a frase, ao ver que o homem não esboçou reação alguma – em dólar. Quinhentos dólares.
Ele meneou a cabeça em um gesto afirmativo e tornou a encher as taças, com um leve sorriso. Depois encarou Bianca.
– Sua amiga será minha por quinhentos dólares. Você obviamente é mais cara, não é?
Sheila olhou para Bianca, pensando em protestar, mas desistiu, pois tanto poderiam entrar em um acordo e dividir os lucros, como já iria ganhar mais do que em duas semanas de trabalho por aquela noite. Fez uma careta para a amiga e um gesto com a mão para cima, incitando-a a cobrar um valor exorbitante.
– Eu não vou cobrar nada por esta noite – disse, observando que os olhos do homem eram castanhos. Na verdade, pareciam cor-de-mel ou esverdeados. Era difícil dizer com certeza, possivelmente por causa dos vidros escurecidos. –Fica para nos conhecermos. Em uma outra ocasião acertamos valores.
Cerca de dez minutos se passaram em um jogo onde o homem insistia para que Bianca cobrasse dele, cada vez sugerindo valores mais altos e Sheila chutandoas canelas dela, entre caretas e gemidos. Bianca ficou realmente tentada com umvalor absurdo que o homem sugeriu ser sua última oferta, daria para passar mais de dez dias em frente ao mar, descansando, no entanto, deste ponto em diante, seus instintos diziam que algo não estava certo e recusou veementemente.
Começava a ficar com medo daquilo tudo e pediu para descer do carro.
Dois dias depois, procurou por Sheila na boate, mas não a encontrou. As meninas disseram que não havia retornado, mas que deveria estar tudo bem, pois não havia sinal de polícia, completaram já acostumadas a relacionar sumiços e interrogatórios. Seus pés ainda tinham bolhas, pois tivera que caminhar bastante, depois que desceu da limusine na beira da rodovia. Nem lembrava mais o motivo de ter descido. Lembrava pouca coisa daquela noite, possivelmente por efeito da bebida. Se bem que não bebera muito, ao menos, era o que achava.
Sheila não havia retornado até o momento, podia estar morta, mas era mais provável que estivesse em alguma praia chique, gastando o dinheiro que ganharacom o programa. Sentia uma pontada de arrependimento por não ter ido com ela.
Bianca olhava para o copo de vermute a sua frente, remexendo em círculos, uma azeitona espetada em um palito, pensando que Sheila retornaria quando a grana acabasse. Não acreditava que algo de errado houvesse ocorrido. Foi então que viu um homem entrar na boate. Era mais elegante que a clientela habitual.
Achava que já o havia visto em algum lugar, mas não lembrava onde. Sorriu,quando ele evitou as demais garotas e se aproximou, sentando-se em sua mesa.
Encarou seus olhos castanhos, um tanto esverdeados, pensando no quanto poderia arrancar dele. Não seria tola dessa vez, precisava descansar um pouco. Ganharia o suficiente para ir para uma boa praia. E da forma que o homem a olhava, como se a conhecesse, parecia que pagaria o que ela lhe pedisse. Sim, pagaria o preço que fosse para tê-la.
Fim

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